“A partir dos anos 80 e com o advento de tecnologias baratas, uma nova forma de ativismo começa a surgir levada pela idéia de nomadismo e resistência. Esses movimentos visam oferecer uma outra maneira de pensar a função transgressiva da comunicação, muitas vezes através de um discurso estético. Essas características vêm tanto dos movimentos de contracultura dos anos 60 quanto da versão européia de estética revolucionária vanguardista. As vanguardas mudaram o lugar da arte das galerias para as ruas reintegrando-a à práxis da vida, mas a experimentação cultural não pode ser privilégio de uma política ou movimento assim como a arte não precisa mais ser a expressão maior de uma superioridade moral.”
Essa atuação tática surgiu por
influência
de Michel de Certeau, que
expõe em ‘A invenção do cotidiano: a tática
como hábil utilização do
tempo’ as circunstâncias que apresenta uma dicotomia entre
tática e
estratégia, que servirá como suporte da
criação do conceito de mídia
tática. A idéia de tática se articula com
práticas de focos,
resistências, levantes, surpresas, enquanto a noção
estratégica é um
cálculo operado pela idéia de um todo homogêneo.
“A fabricação que se quer detectar é uma
produção, uma poética – mas
escondida, porque ela se dissemina nas regiões definidas e
ocupadas
pelos sistemas da ‘produção’ (televisiva,
urbanística, comercial) e
porque a extensão sempre mais totalitária desses sistemas
não deixa aos
‘consumidores’ um lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos”
O princípio comum entre os grupos, o ‘faça você mesmo (DIY)’, problematiza questões relacionadas aos meios de produção, demonstra-se pela crítica ao sistema de arte estabelecido, além da busca por sistemas autônomos. “Desafiante, brincalhona, iconoclasta e consciente, a mídia tática não tem papas na língua para pôr em questão os padrões do bom gosto, da apatia social, da prática artística ou da assepsia ideológica das novas mídias”. A MTB possui um perfil ousado, voltado para a questão tecnológica como o desenvolvimento e pesquisas relacionados a software livres, preocupados pela legitimação de uma ‘free culture’.
A cultura livre envolve projetos de mídias independes, como o CMI no Brasil, rádios livres, softwares livres, democracia direta, comunicação livre, colaboração, redes sociais, educação, práticas de intervenção urbana além de ‘novos arranjos econômicos’.
“Mídia Tática é um conceito alternativo
de
mídia que surgiu nos anos
90, fruto de uma série de práticas de ativistas de
mídia e festivais de
novas mídias pela Europa e EUA. O fundamento básico do
conceito mídia
tática é um uso diferenciado das potencialidades
midiáticas tornado
possível graças à crescente acessibilidade dos
materiais e equipamentos
de mídia, e à conseqüente explosão de
produção faça-você-mesmo (DIY).
Tal forma diferenciada implica num uso "político" desses meios,
desvinculado dos interesses mercadológicos e dos interesses das
classes
dominantes a eles normalmente associadas - isso sem contar a estrita
dependência das mega-corporações que engoliram o
setor nos últimos anos
- em se dando voz a todos aqueles excluídos desses meios:
classes
desfavorecidas, minorias (raciais, sexuais, etc.), comunidades
alternativas, dissidentes políticos, artistas de rua, etc.
O princípio de tática vem como oposto a
estratégia, no sentido de não
efetuar um confronto direto com o rival, mas através de
"táticas", de
modos de atuação que minem as suas forças e
efeitos devastadores. O
conceito deriva dos estudos de Michel de Certeau em "A
Invenção do
Cotidiano" e a definição em si é do artista
plástico polonês Krzystof
Wodiczko criador de veículos de alumínio para moradores
de rua. O termo
foi materializado nas séries de manifestos (ABC da Mídia
Tática, DEF da
Mídia Tática), lançados na lista de
discussões Nettime, por Geert
Lovink e David Garcia. Na prática, táticas são "as
técnicas pelas quais
os fracos se tornam mais fortes que os opressores" (Lovink e Garcia).”
A rede orgânica Mídiatática.org está inserida num contexto internacional mais amplo de grupos Mídias Táticas emergentes. Portanto, centralizaremos nossa atenção na organização dos grupos e eventos da rede Mídiatática.org. A rede se configurou principalmente após o I Festival de Mídias Táticas realizado na Casa das Rosas (13 a 16 de março de 2003), organizado pelo crítico de arte e jornalista Ricardo Rosas. Participaram do encontro cerca de mais de 30 grupos diferentes, além de ativistas independentes. O festival reuniu um público bastante eclético, resultando na interação dos grupos e na difusão da produção de mídia e arte independente. Antes disso, porém, a rede já existia na web, mas de modo mais disperso.
Um episódio ocorrido no festival foi o "barraco" armado pelo repórter Britto Jr., da mídia corporativa Rede Globo, que foi ‘criticado pelos participantes por interferir nas instalações e não respeitar a organização do evento. Britto utilizou ofensas para provocar os ativistas, mas Rosas rebateu em matéria veiculada no Centro de Mídia e Informação (CMI), "Achei ótimo. Nós não fazemos a menor questão de que isso saia na Globo. Inclusive, se a transmissão fosse ao vivo, íamos sabotar, atacando o repórter com um extintor de incêndio. Mas a emenda saiu melhor."
O tema principal do festival foi "Comunidades em Rede e Inclusão Digital”, com a presença do acadêmico inglês Richard Barbrook, John Perry Barlow da Electronic Frontier Foundation e o Ministro da Cultura, Gilberto Gil. Os debates do I Festival ocorreram em edifícios parceiros, na Fundação Japão e SESC, abordando em suas mesas: "arte como resistência", "mídia independente", "introdução à mídia tática", "videoativismo", "netativismo", "hacktivismo", "copyleft" e "som pós-mídia", ‘sistema Linux’ e ‘software open source’, entre outros.
Os workshops aconteceram no SESC na unidade Vila Mariana (web rádio, dado pela Rádio Muda) e no Telecentro Cidade Tiradentes (colaboração online com Projeto Meta:fora). O evento, em geral, teve boa repercussão e fomentou discussões on-line, além de promover certa visibilidade aos coletivos ativistas brasileiros, fosse por suas abordagens pertinentes à realidade da cultura nacional, distante do circuito preestabelecido, fosse pelo despertar da potência relacionada à tecnologia, arte e política.
O festival de Mídias Táticas foi inspirado em outros festivais independentes, como o ‘The Next Five Minutes’(N5M), em Amsterdã. O ‘The Next Five Minutes’ possui um caráter multidisciplinar e busca, sobretudo, trazer o diálogo entre as ‘quatro culturas distintas, porém tangentes – ativismo social e político, artes visuais, experimentações radicais em mídia eletrônica e teoria critica.’ Ou seja, bastante pertinente com a ação proposta pelos diversos laboratórios de mídia (TMLs) internacionais.
Participando do festival europeu ‘Next Five Minutes’(2003), Felipe Fonseca e Ricardo Rosas, representando o Mídia Tática Brasil, apresentaram os projetos Metáfora e Autolabs, respectivamente. O Autolabs apresentou-se numa área de programação livre, a TAZ, desenvolvendo idéias acerca da ‘tactical media from the masses’. Além disso, houve a apresentação de Graziela Kunsch, com mostra de vídeos de coletivos de arte brasileiros em ações diretas, material disponibilizado publicamente no arquivo de ‘Melkweeg’.
“A velocidade elétrica mistura as culturas da
pré-história com os
detritos dos mercadologistas industriais, os analfabetos com os
semiletrados e os pós-letrados.
(...) As antigas sociedades pré-históricas tem como
patético o crime violento.
Se o criminoso é visto como um inconformista, incapaz de atender
aos
ditames da tecnologia, no sentido do comportamento segundo
padrões
uniformes e contínuos, o homem letrado se inclina a encara
pateticamente aqueles que não se enquadram nos esquemas.”
A chamada revolução digital processa
transformações rapidamente na
sociedade contemporânea. O homem adquire novos valores jogando
com
inserções entre a tecnologia e o poder econômico,
como uma arma de
liberação. O Mídiatática assume um
posicionamento bastante democrático
e autocrítico, de exposição aberta de seus
processos na web. Por esse
motivo, as mídias táticas combatem a exclusão
tecnológica em todas as
instâncias, mantendo-se à parte da alta cultura.
O grupo Metareciclagem, por exemplo, propõe oficinas de
reciclagem de
equipamentos eletrônicos low-tech, atuando em locais
diversificados,
desde instituições culturais até projetos mais
complexos, itinerando
junto a comunidades periféricas. Eles atuam em
ações táticas tanto na
rede Coro, como também na rede Midiatática.org, na qual
as
configurações nas redes não são fixas, mas
parceiras entre si.
Abordemos ainda projetos de mídias táticas que agregam mostras, educação, difusão da cultura livre, parcerias, sistemas de organização da rede, pontos de cultura, publicações de eventos do movimento MTB como, por exemplo, o Submidialogia, Descentro, o Upgrade!.
“Descentro é fruto de uma colaboração estabelecida em 2004 entre participantes de grupos brasileiros (midiatatica.org, metareciclagem.org, radiolivre.org e estudiolivre.org) com a plataforma de pesquisa internacional Sarai-Waag (india - holanda : http://sarai.waag.org ) . O grupo tem como objetivos o compartilhamento da informação e do conhecimento, o acesso universal aos meios de comunicação e informação, a produção cultural crítica justificada pela transformação social, a livre expressão cultural e artística, as práticas educacionais, autonomia organizacional e auto-organização.”
O projeto Descentro prioriza a criação e manutenção de ferramentas tecnológicas de colaboração e ‘teletrabalho’, como os softwares livres, oferecendo workshops educativos, criação de processos e ações artísticas, acesso público à produção intelectual ou processual produzido, com o uso de licenças livres.
“ Submidialogia#2 (12 -15 OUT 2006 / Olinda - PE):
Um laboratório para a prática radical de
construção de ambientes
colaborativos na cidade de Olinda. Palestras, laboratórios de
produção,
transmissão de rádio fm, televisão e Internet e a
o delicioso bate-papo
entre tod@s submidiátic@s.
a idéia
+trazer diferentes experiências - teóricas e
práticas - para contatarem-se;
+jogar, de um novo ponto de vista, articulações entre
teoria e prática nos meios tecnológicos;
+incentivar teoria sobre as práticas para que estas não
anulem-se tornando-se utilitarismo;
+incentivar práticas sobre teoria, aplicando experiências
em prol de uma (sub) concepção do aparato
tecnológico midiático;
+criar um espaço tempo de subversão das práticas e
teorias sobre tecnologia.”
Exploraremos a participação da rede MTB e seus processos de autolegitimação por meio de eventos significativos no âmbito do artivismo e tecnologia, como ‘Cibersalão’, o iSummit (Rio de Janeiro - Brasil), o Onda Cidadã Itaú Cultural (São Paulo - Brasil), fundação de Pontos de Cultura, entre outros.
“Cibersalão.BR (5 JUN 2006 / Salvador - BA e 16 JAN
2007 /
Belo Horizonte - MG):
cibersalão.br é um espaço real e virtual onde
pessoas envolvidas na
produção criativa em plataforma digital podem se
encontrar para
conversar. para o engajamento cada vez mais profundo em nossas
práticas
e teorias, é essencial que compartilhemos e comuniquemos as
nossas
experiências. ao celebrar e promover as múltiplas
possibilidades das
tecnologias de informação e comunicação,
cibersalão pretende organizar
discussões online e ao vivo que foquem no novo meio digital da
internet, assim como apresentar trabalhos que a utilizem como
subjétil.”
Os Mídiatática.org mantêm intercâmbios em diversas localidades disseminando sua atuação em festivais como o ‘10º Futuresonic’(Manchester – Grã-Bretanha), em 2006, com o grupo inglês UHC Collective, exibindo seu projeto móvel ‘Mimosa’, que já circulou pelo Nordeste do Brasil, pela América do Sul, Espanha, Grécia, Inglaterra e Alemanha. O projeto “Mimosa consiste em oficinas de mídia, mobilização e arte digital. Montagem de um estúdio de produção para aprendizado e convivência, que possibilitará a criação de uma mídia móvel.”
Alguns de seus membros fizeram residência artística em Tesla, na Wizards of OS (Berlim – Alemanha), apresentando uma cartografia sobre a cena ativista de coletivos de arte nas novas mídias brasileiras e refletindo acerca das conexões entre iniciativas independentes, governamentais, comunitárias e privadas (FIG. 14). O projeto propõe a descentralização do poder institucional a partir da disseminação de laboratórios tecnológicos e práticas de aprendizado em softwares livres. A Mimosa também executa um papel desmistificador no caso da inclusão social, por meio da participação do público. O mapeamento atenta para as relações entre o sistema de artes estabelecido, as políticas culturais locais e possíveis alterações com a inserção e parcerias das mídias táticas.
Ruiz, um dos fundadores do midiatatica no Brasil, aponta para um novo posicionamento acerca da industria cultural em relação à cultura livre. Eles nos sugerem “(re)construir a ponte entre a evolução técnica e a cultura, retomar a magia sobre os objetos construídos a partir de uma ‘ciência’ possibilitando o cultivo de muitos jardins de volts e mimosas mundo afora!” Estas formas de auto-organizações livres podem impulsionar novas complexidades na base do universo da industria cultural emergente.
Segundo Flusser nos fala a respeito do aparelho em ‘Filosofia da caixa preta.’, “São as virtualidades contidas nas regras: o software. O aspecto duro dos aparelhos não é o que lhes confere valor (...) É o aspecto mole, impalpável e simbólico o verdadeiro portador de valor no mundo pós-industrial dos aparelhos. Transvalorização de valores”. Estas virtualidades implicam em táticas e estratégias criadas por jogadores e programadores do meta-aparelho. “Caixas pretas que simulam o pensamento humano, permutam símbolos contidos em sua ‘memória’, em seu programa. Caixas pretas que brincam de pensar.” Os interesses que mobilizam o programa representam infinitas camadas acompanhadas de suas respectivas meta-camadas. Em um sistema complexo, a hierarquia de programas torna-se aberta através de metaprogramas. ‘O decisivo em relação aos aparelhos não é quem os possui, mas quem esgota o seu programa.’
O desafio seria compreender tais relações dentro de um método de progressões do sistema. As inter-relações entre os diversos agentes culturais demonstram possíveis desdobramentos em formas híbridas. A legitimação das redes orgânicas, por vezes questionada, seria possível por meio dessas formas híbridas e parcerias independentes e institucionais? Ou, ainda, a legitimação se daria por seus próprios meios, por eventos em redes maiores, pela reverberação de suas ações e projetos? Como diria Mc Luhan sobre a presente era da tecnologia, “O meio é a mensagem. O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o seu ‘conteúdo’ é um outro meio”.